Entenda a Teoria Institucional e por que a legitimidade social é o fator que define a sobrevivência das empresas hoje.
Se você já sentiu que "fazer tudo certo" tecnicamente não foi o suficiente para um projeto ser aceito, este artigo é para você. Vamos mergulhar na Teoria Institucional para entender por que, no mundo real, ter razão técnica importa menos do que ter legitimidade.
Neste guia completo, vamos "costurar" as visões dos grandes autores da disciplina Teorias da Administração II e entender como proteger o que é essencial na nossa gestão. Fica comigo até o final para ressignificar sua visão sobre o que é, de fato, ser um administrador de sucesso.
O Salto da Técnica para o Social: A Evolução BT2F2 / BTTFF
Para entender onde estamos, precisamos olhar para trás. Na nossa base técnica, que carinhosamente chamamos de BT2F2 (Burocracia, Taylorismo, Toyotismo, Fordismo e Fayolismo) (CARRIERI, 2026), o foco era quase total na racionalidade técnica e na estrutura formal.
Max Weber nos deu a base da Burocracia, focando em meritocracia e modelos de eficiência (como o modelo asiático). Logo depois, Herbert Simon (1947) trouxe uma dose de realidade com a Racionalidade Limitada, pois ele nos mostrou que o comportamento humano é complexo e que nossa capacidade de decidir é sempre restrita pelo contexto.
Mas a grande pegadinha até aqui está em achar que a eficiência técnica explica tudo. Quando avançamos para a Abordagem Contingencial, passamos a relacionar o Ambiente, a Tecnologia, a Estrutura e a Estratégia. Mas é na Teoria Institucional (TI) que a mágica acontece: a gestão deixa de ser apenas sobre "produzir" e passa a ser sobre ter crédito simbólico.
Philip Selznick e o Administrador como Criativo
Se existe um "pai" para esse movimento, ele é Philip Selznick (1957). Para ele, a institucionalização é um processo adaptativo e criativo.
- Gestão para Selznick: É a guardiã da eficiência econômica e social, operando sob racionalidade limitada.
- Institucionalização: É onde a organização ganha vida, enchendo-se de significados simbólicos para manter sua legitimidade.
Selznick faz uma distinção vital: organizações são apenas ferramentas descartáveis, já as instituições são organizações que ganharam valor próprio.
O Coração da Teoria: Significação Social e Legitimidade
A Teoria Institucional nos ensina que a significação social é o fator determinante da gestão. Segundo Mark Suchman (1995), a legitimidade é o "crédito" que a sociedade nos dá. Sem esse crédito, a organização simplesmente não sobrevive, independentemente de quão eficiente ela seja em dados no Excel.
Itens Simbólicos e o Mercado
Hoje, não há entrega de apenas bens e serviços. O mercado exige demandas por itens simbólicos, culturais e sociais.
- Exemplo: O Branding de uma marca não é apenas um logo bonito, pois se trata da construção dessa legitimidade.
- O freio moral: É esse "crédito" que impede, por exemplo, que o sistema financeiro financie crimes ilícitos abertamente.
Quando a Legitimidade Desmorona
Nós vimos isso na prática com casos pesados. A Samarco, após o desastre de Mariana (2015) e a Vale, após o desastre de Brumadinho em 2019, perderam sua legitimidade social. Ali ficou claro: a legitimidade estava intrinsecamente ligada à sustentabilidade.
Outro exemplo atual é o das Lojas Americanas. Ali, a deslegitimidade gerada por falhas de gestão e transparência fez com que os acionistas perdessem tudo. Isso prova que mudanças nas organizações são, na verdade, mudanças que as pessoas fazem nelas.
O que é Legitimidade Organizacional? A Visão Ontológica e os Três Pilares
Muitas vezes confundimos legitimidade com status ou sucesso de mercado. Mas o importante aqui está em entender que a reputação foca na comparação e na superioridade entre pares, enquanto a legitimidade foca estritamente na aceitabilidade e adequação da firma a um sistema social (ROSSONI, 2016).
Segundo Rossoni (2016), a legitimidade não é um "recurso" ou objeto que a empresa possui internamente para manipular em uma campanha de marketing. Na realidade, ela é uma percepção externa, um julgamento social coletivo de que as ações daquela entidade são desejáveis ou apropriadas.
Para entender como esse julgamento social é construído profunda e estruturalmente, Richard Scott (1995) divide o ambiente institucional em três pilares essenciais. Rossoni (2016) adota essa mesma divisão para mapear as dimensões da nossa legitimidade:
- Pilar Regulativo / Regulador: Baseia-se em leis, regras formais e sanções. Aqui, a legitimidade vem do estrito cumprimento legal. As empresas obedecem pelo medo da punição ou pelo custo do descumprimento (é o "tem que fazer").
- Pilar Normativo: Relaciona-se a valores, expectativas e normas morais da sociedade. A organização é considerada legítima porque faz o que o coletivo julga como "correto", "ético" ou "honroso" (é o "deveria fazer").
- Pilar Cultural-Cognitivo: O nível mais profundo e sutil. É quando a organização é totalmente naturalizada pela cultura. Ela ganha legitimidade simplesmente porque é "tomada como certa" e sua existência é logicamente necessária (é o "como as coisas são", como no caso de hospitais e escolas).
Para proteger o que é essencial na nossa gestão, precisamos entender que a manutenção da legitimidade atinge seu ápice justamente nesse nível cognitivo: o estado de naturalização onde a organização nem precisa mais gastar energia se justificando para existir. Mas fique atento, pois a deslegitimação acontece exatamente quando há um descompasso entre a prática da empresa e a mudança de valores do ambiente, como nos exemplos já citados anteriormente neste artigo (ROSSONI, 2016; SCOTT, 1995).
Realidade de Mercado: O Discurso e a Prática
O que temos aprendido na prática em Teorias da Administração II e que vemos muito em estágios e empresas é o uso de discursos para humanizar estruturas. Sabe aquele papo de "Somos uma grande família"? Isso é um movimento discursivo para tentar absorver a legitimidade de uma instituição básica (a Família) para dentro da empresa. É uma tentativa de "moldar" comportamentos internos e externos através da pressão social (CARRIERI, 2026).
IA vs. Pessoas
Um ponto crucial que discutimos em aula é que "a Inteligência Artificial (IA) indica caminhos, mas não toma decisões". Quem faz a leitura do ambiente social não é o algoritmo, são as pessoas. A Inteligência Artificial é uma produção social dentro das empresas, mas a decisão final, aquela que carrega o peso da legitimidade, ainda é nossa.
💡 Conselho de Veterana
A grande sacada para ganhar tempo e paz mental no estágio ou na sua empresa é entender o Isomorfismo (veja mais aqui). Muitas vezes, nós nos esforçamos para criar algo do zero, quando a organização só quer que adotemos modelos que já são socialmente aceitos (legitimados). Se você entender quais são as "regras não escritas" do seu setor, você para de lutar contra a maré e foca no que realmente entrega valor. É possível utilizar ferramentas como o Notion ou o Drive para mapear esses padrões e documentar como a sua marca está construindo esse "crédito simbólico" todos os dias.
Evolução da Gestão na Teoria Institucional: Do Operário Deprimido ao CEO Vulnerável
Antes de 1970, o foco era o "operário deprimido", onde o capital parecia fazer tudo sozinho. Pós-1970, o gestor foi redefinido. Com o Neoliberalismo, a legitimidade subiu para a Alta Administração (Alta ADM).
Hoje, o CEO também é um prestador de serviços. Se a legitimidade da empresa cai, ele perde o emprego. A Alta ADM agora é parte do social, de modo que não existe mais aquela cúpula isolada da sociedade. Tudo está conectado por índices de reputação e valores de mercado.
Para proteger o que é essencial nesse processo, precisamos entender que até exemplos como o Futebol Feminino mostram isso: a falta de patrocínio histórico não era por falta de técnica, mas por falta de legitimidade social dentro de um contexto específico que agora está mudando (CARRIERI, 2026).
Conclusão: Quem somos nós após TAI II?
Ao final das aulas de Teoria Institucional e das reflexões apresentadas aqui, a pergunta que fica é: Quem é o administrador depois de entender a Teoria Institucional? Nós deixamos de ser apenas técnicos de eficiência para nos tornarmos gestores de símbolos e significados. Sem a pressão do imediatismo, podemos perceber que o sucesso de uma organização depende da sua capacidade de ser aceita e respeitada pelo que ela representa, não só pelo que ela entrega.
Entender isso nos ajuda a ter mais propósito. Afinal, tudo nas empresas é uma criação humana e, portanto, tudo pode ser mudado por nós.
Como você percebe a legitimidade na empresa onde trabalha ou na sua própria marca? Você sente que a técnica ou o "crédito simbólico" pesa mais no dia a dia?
Vamos conversar nos comentários!
Entenda mais sobre a Teoria Institucional em:
Teoria Institucional, Agência e Custos de Transação: Jogo Oculto das Organizações
Teoria Institucional além do óbvio: entenda as amarras do isomorfismo na gestão "copie e cole" e por que a governança virou a coqueluxe das empresas.
Referências e Créditos
Conteúdo Acadêmico: Baseado nas aulas ministradas pelo professor Alexandre de Pádua Carrieri na disciplina Teorias da Administração II (UFMG, 2026).
Bibliografia Consultada:
- CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à Teoria Geral da Administração. 10. ed. Rio de Janeiro: Atlas, 2020.
- DIMAGGIO, Paul J.; POWELL, Walter W. The Iron Cage Revisited: Institutional Isomorphism and Collective Rationality in Organizational Fields. American Sociological Review, v. 48, n. 2, 1983.
- ROSSONI, L. O que é legitimidade organizacional? Organizações & Sociedade, v. 23, n. 76, p. 110-129, 2016.
- SCOTT, W. Richard. Institutions and Organizations: Ideas, Interests, and Identities. Thousand Oaks: Sage, 1995.
- SELZNICK, Philip. Leadership in Administration: A Sociological Interpretation. New York: Harper & Row, 1957.
- SIMON, Herbert A. Administrative Behavior. New York: Macmillan, 1947.
- SUCHMAN, Mark C. Managing Legitimacy: Strategic and Institutional Approaches. Academy of Management Review, v. 20, n. 3, 1995.
- WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: UnB, 1991.
Curadoria e Redação: Thaís de Souza Costa (Thaís Costa PRO).
💡 Como citar: COSTA, Thaís S. "Teoria Institucional: Por que a legitimidade vale mais que a eficiência?". Thaís Costa PRO, 2026. Disponível em: [Link]. Acesso em: 29 de abr. de 2026.
