Biopoder e Necropolítica: O Lado Sombrio da Administração que Ninguém te Conta

Descubra como o biopoder e a necropolítica influenciam a Administração contemporânea. Entenda a lógica oculta que controla a gestão e o mercado.

Uma arte de capa atmosférica e sombria com um corredor de escritório burocrático ao fundo, repleto de arquivos de metal e prateleiras de servidores de dados sob luz fraca. No topo, um texto grande em negrito diz: "BIOPODER E NECROPOLÍTICA: O LADO SOMBRIO DA ADMINISTRAÇÃO". No primeiro plano, uma mão usando uma luva de látex branca, simbolizando controle asséptico e biopoder, segura um carimbo de madeira tradicional. O carimbo está prestes a ser pressionado em uma folha de papel em branco em uma mesa de madeira. A sombra ou a marca do carimbo no papel forma uma silhueta de uma pessoa derrotada e curvada em uma mancha vermelha como sangue, simbolizando a necropolítica e a subordinação administrativa. A marca d'água "thaiscostapro.com" está no canto inferior esquerdo.

Muitas vezes na Administração, somos acostumados a focar em eficiência, lucro e otimização de processos a todo custo. No entanto, quando abrimos os olhos através da
Teoria Crítica na Administração, percebemos que gerenciar não é uma técnica neutra.

Administrar é, fundamentalmente, uma tecnologia política para governar pessoas e ditar comportamentos. 

Por isso, hoje vamos dar um passo além para entender as engrenagens mais profundas do poder moderno. Fique até o final para dominar os conceitos de biopoder e necropolítica no contexto administrativo.



1. Desconstruindo a Razão Moderna

Para entender o biopoder, precisamos primeiro dar um passo atrás e questionar a própria base do que chamamos de "gestão racional". Na nossa rotina de estudos ou no dia a dia do trabalho, ouvimos o tempo todo que os administradores devem tomar decisões puramente lógicas e científicas, certo?

A grande pegadinha é que o pensamento moderno e contemporâneo é sustentado por uma "razão limitada". Por trás dessa fachada de neutralidade técnica, escondem-se dualidades históricas de gênero e classe, que moldam quem tem voz nas organizações. É nessa linha tênue que surge o eterno embate entre Razão X Desrazão. Afinal, quem é que define o que é "racional" ou "lógico" dentro de uma empresa? Geralmente, quem está no topo.

Como explica DANNER (2010), o poder na modernidade rompeu com aquele modelo clássico do Estado repressor, que controlava as pessoas apenas na base da força ou da lei. O poder moderno é positivo e produtivo, de modo que ele fabrica saberes, rituais e padrões de comportamento "aceitáveis". É uma estratégia sutil para treinar nossos corpos e mentes a obedecer sem que a gente perceba, transformando o controle em algo natural na nossa rotina de trabalho.



2. Biopolítica Clássica: O Nascimento do "Fazer Viver"

O conceito de biopoder nasceu nos séculos XVIII e XIX como uma tecnologia política indispensável para gerenciar, regular e controlar a vida da população. Essa é a verdadeira gênese da ciência administrativa aplicada ao Estado.

O foco inicial era garantir a manutenção do tecido social cuidando da saúde, higiene, sobrevivência e taxas de natalidade. A grande virada foi a mudança da lógica soberana para o princípio biopolítico do "Fazer viver, deixar morrer?".

O Estado passou a usar censos demográficos e ferramentas estatísticas para equilibrar biologicamente a população. Isso gerou um forte impacto regulatório nas nossas vidas, como vemos até hoje nos sistemas previdenciários criados para gerir o corpo na velhice.

Sem a pressão do imediatismo, veja como esse poder se divide em dois grandes eixos segundo DANNER (2010):

Eixo TecnológicoAlvo de IncidênciaObjetivo PrincipalReflexo Prático na Administração
Anátomo-políticaO corpo individual do trabalhadorAtingir o binômio utilidade-docilidadeMétodos mecânicos do Taylorismo e Fordismo (adestramento de movimentos).
BiopolíticaA massa biológica (população)Monitorar taxas e regular a sociedadeGestão pública calculista, censos e políticas de saneamento.

3. A Nova Biopolítica e a Captura do Mercado

Com o avanço do capitalismo contemporâneo financeirizado, a biopolítica sofreu uma mutação drástica. Entramos na era do Neoliberalismo + BT²F²  a soma explosiva da Burocracia, Taylorismo, Toyotismo, Fayolismo e Fordismo.

A grande pegadinha aqui está em perceber que o controle deixou de ser uma exclusividade do governo. Agora, a biopolítica e a necropolítica são diretamente coordenadas pelas leis do mercado financeiro.

Nesse cenário, a vida e a morte são mensuradas estritamente pelo valor econômico:

  • O sujeito que gera lucro é protegido (mecanismo de preservação do biopoder).
  • O sujeito que não gera lucro é descartado (mecanismo da necro).

Fomos formatados para agir como o homo economicus, aceitando a ilusão de sermos o "empreendedor de si mesmo". Sob o peso do Controle Algorítmico, assumimos uma autogestão física e psicológica violenta.

Ocorre uma dinâmica perversa onde o indivíduo passa a internalizar a lógica de uma empresa, aplicando as regras do mercado à sua própria vida e subjetividade(substituindo a antiga noção de trabalho).

Dessa forma, na lógica de mercado você passa a se enxergar e a se gerenciar como se fosse um negócio próprio. É você quem deve cuidar individualmente da sua saúde, educação e bem-estar. Se o sistema falhar ou se você adoecer, a lógica corporativa que você internalizou sussurra que "a culpa é sua".

Até os direitos universais antes garantidos pela ONU transmutam-se em serviços comerciais. E essa captura alcança inclusive as chamadas Tecnologias Sociais (TS).

MENDES et al. (2015) alertam que cooperativas e mutirões periféricos são frequentemente usados pelo sistema neoliberal como soluções temporárias de baixo custo. O sistema individualiza o fracasso e usa as TS para "fazer viver" populações vulneráveis sob condições mínimas, apenas para conter rebeliões e manter o mercado estável.



4. Necropolítica: A Gestão Calculada da Morte

Quando a análise do biopoder colide com o histórico colonial, o conceito de Necropolítica torna-se indispensável. LIMA (2018), dialogando com Achille Mbembe, aponta que as teorias eurocêntricas, ou seja, aquelas teorias tradicionais criadas pensando apenas na realidade confortável da Europa, falham ao esquecer que os territórios colonizados são marcados pela administração calculada da morte.

A espécie humana passa a ser disposta de forma artificial em grupos e subgrupos. A diferenciação de "raças" opera como uma verdadeira tecnologia de segmentação para desumanizar corpos e justificar a dominação e o extermínio. Para proteger o que é essencial nesse processo, precisamos encarar a realidade: a política da raça gerou uma verdadeira Indústria da Morte

No cenário nacional, LIMA (2018) demonstra que o racismo estrutural funciona como um "crime perfeito". É uma tecnologia molecular que condena corpos negros ao extermínio físico (pela letalidade do Estado) e subjetivo (pelo silenciamento). Os indicadores de vulnerabilização urbana, como o genocídio da juventude periférica, o feminicídio de mulheres pretas e a prisão em massa da população pobre, provam que a eliminação em massa é gerida de forma estratégica.



5. A "Nova Necro" e a Máquina de Produção do Terror

Outro ponto que mexe muito com a nossa cabeça nas aulas é entender como a modernidade se conecta com o terror. Acontece que essa violência não surge do nada, pois ela vem de vários lugares e assume tons bem institucionais.

A chamada "Máquina de Produção do Terror" nada mais é do que uma nova maneira de organizar o próprio governo. O Estado passa a ser redesenhado para funcionar com as métricas, os elementos operacionais e as metas de uma empresa comercial.

Quando a política vira um negócio focado apenas em resultados financeiros, o sistema inevitavelmente gera uma população excedente, pessoas que não servem para o mercado e acabam tratadas como verdadeiro "lixo humano". São aquelas parcelas da sociedade historicamente empurradas para as margens do mapa, o que levanta aquela dúvida clássica que ouvimos em sala: Isso acontece mais abaixo do equador? Na África? Na nossa realidade periférica? (CARRIERI, 2026).

O pior é que essa violência contemporânea adora se fantasiar de técnica limpa e neutra. Ela não é feita com armas nas mãos, mas gerada friamente através de planilhas de orçamento. E a grande provocação feita em sala é que é exatamente isso que acontece quando vamos trabalhar em uma empresa: os estagiários, muitas vezes são reduzidos a meros preenchedores de planilhas, operando de forma mecânica essa burocracia que ignora o lado humano.

No fim das contas, o diagnóstico é um só: temos um racismo acentuado, mas estrategicamente escondido atrás de discursos de eficiência, cortes de verbas e redução de custos.



Realidade de Mercado: O Papel do Administrador Crítico

Trazer essas teorias para o nosso cotidiano de trabalho exige coragem. O ecossistema corporativo atual, redesenhado pela flexibilização e pela pressão por metas, atualiza diariamente as técnicas de adestramento psicológico.

Como futuros gestores, precisamos entender que assédio moral e esgotamento não são falhas individuais, mas sintomas dessa máquina biopolítica. Desnaturalizar esses discursos de falsa autonomia é o primeiro passo para construir espaços de trabalho saudáveis.


Conclusão e Reflexão

Compreender o biopoder e a necropolítica redefine por completo o nosso horizonte ético profissional. Não podemos aceitar que a Administração reduza seres humanos a meros recursos descartáveis em uma planilha de custos. O nosso papel é ressignificar a eficiência, transformando a organização técnica em um meio para proteger a dignidade, a diversidade e a vida.

Como você enxerga os mecanismos de biopoder no seu atual ambiente de trabalho ou estágio? Deixe seu comentário aqui embaixo!


Referências Bibliográficas

  • Conteúdo Acadêmico: Baseado nas aulas ministradas pelo professor Alexandre de Pádua Carrieri na disciplina Teorias da Administração II (UFMG, 2026).

  • DANNER, Fernando. O sentido da biopolítica em Michel Foucault. Revista Estudos Filosóficos, São João del-Rei, n. 4, p. 143-157, 2010.
  • LIMA, Fátima. Bio-necropolítica: diálogos entre Michel Foucault e Achille Mbembe. Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 70, n. esp., p. 20-33, 2018.
  • MENDES, Luciano; BONILHA, Maíra Coelho; ICHIKAWA, Elisa Yoshie; SACHUK, Maria Iolanda. Tecnologias Sociais, Biopolíticas e Biopoder: Reflexões Críticas. Cadernos EBAPE.BR, Rio de Janeiro, v. 13, n. 4, p. 687-700, 2015.


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